sábado, 19 de maio de 2012

O último ato

Entre doses generosas de cachaça, cervejas e tira-gostos, fiéis armazenistas celebraram, na tarde de ontem, uma sexta-feira de céu cinzento na província soteropolitana, um encontro retumbante no Armazém Espanha, prestes a fechar as portas após 64 anos de atividade.

Estiveram presentes velhos e novos frequentadores, que, na iminência da tragédia que se desenha, já se inundam em saudades do melhor reduto etílico dos Barris.
O professor André Setaro, cinéfilo e decano do Espanha, chegou estrategicamente três minutos antes do combinado, às 14h57. Isto para sentar-se num canto preferido, ao lado de uma mesa redonda, batizada carinhosamente de "ofertório".

Com ele chegou o sargento Romenil, outro  personagem assíduo na trajetória do "santuário". E, como prometera às vésperas do evento, trouxe consigo dúzias de cajus, para temperar as Januárias caprichosamente preparadas por Baixinho.
Também passaram por lá Alex Rolim e Claudio Leal, jovens jornalistas e testemunhas do prestígio de que sempre gozou o Armazém Espanha. 
Fidedigno ao horário de fechamento do estabelecimento, pontualmente às 21h, Seu Zé, casmurro habitué, ontem, porém, surpreendeu a todos: permitiu, excepcionalmente, que déssemos uma esticadinha até pouco mais das 22h. Foi o último ato.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Armazém Espanha deixará órfãos


Os frequentadores do casarão número 38 da Rua General Labatut, no bairro dos Barris, correm o risco de ficar “órfãos” caso Seu Zé leve adiante o plano de fechar o lendário botequim que, pelas suas contas, funciona no local há 64 anos. Para ser mais preciso, desde o dia “13 de janeiro de 1948”, diz o ora simpático, ora sisudo, senhor de cabelos alvos do alto de seus 80 anos.
Mais conhecido como Armazém Espanha, referência à nacionalidade do dono, o espaço é uma herança do pai dele, que comercializava de tudo um pouco noutros tempos.
Baixinho, o fiel escudeiro de Seu Zé, é testemunha ocular da trajetória do Espanha. Começou a trabalhar com ele 42 anos atrás. O apelido, obviamente, ganhou da clientela devido à sua pouca estatura. Décadas de balcão, Baixinho, cujo nome de batismo é Raimundo, conta que nessa caminhada viu muita coisa mudar no entorno.
Entre os assíduos do Espanha, jovens e senhores, boa parte mora na região. Um dos mais fiéis é o professor e crítico de cinema André Setaro, que, sempre acompanhado do sargento Romenil, reveza-se entre doses de Januária e Antarcticas canela de pedreiro.
Além dos preços bem modestos, o ambiente do Espanha é agradabilíssimo e convidativo para uma boa prosa. E sem qualquer inconveniência, claro! Rádio às alturas e som de carro, nem pensar.   
A cerva, acredito, é a mais barata da área. Varia de R$ 2,70 a R$ 3,50, a depender da marca. Lá, também é possível petiscar alguma coisa mesmo com pouca grana no bolso. Por apenas R$ 3, belisca-se 50g de salame ou 100g de queijo prato.
A notícia de que Seu Zé pode fechar as portas de um dos melhores santuários etílicos do centro da cidade, porém, pegou a todos de surpresa - inclusive estas Cartas de Balcão, que esteve no Espanha no dia 4 deste mês.
Indagado sobre os motivos que o levaram a dar tão triste rumo ao querido botequim, Seu Zé é lacônico: “Não vou morrer aqui”.
Resta-nos agora torcer para que ele mude de ideia.